Glória ao sorriso. Acabo de ler o diário da feiticeira negra, não sei mais ao certo o que pensar, porém posso assegurar que ainda continuo aprendendo com a feiticeira, mesmo que ela tenha tomado o caminho do coração, o que aplaudo. Li, porque hoje sei o que sentiu para escrever aquelas páginas, porém hoje sou um feitiço somente, criado e jogado, sem controle e direção, mas ativo a ponto de lhe enfeitiçar.

"Gosto muito de você leãozinho..."
Ainda derramo lágrimas nesse refrão, ainda derramo lágrimas pelo leãozinho e seus piercings, lágrimas que irão cair até as 6 da manhã.

Jack está tentando se levantar, mas o "tv-show" não o deixa e a hipnose coletiva imprime o relax. Locou pelo vazio ele se perde em um infinito de informações vomitada pelos mecanismos alienativos da mídia. 
Sorri, uma falsa sensação de prazer o faz sorrir, mas é somente uma técnica subliminar barata e corriqueira.

A campainha da casa de Jack toca, ao abrir esperançoso a porta esperando uma visita, ele recebe a nova taxa de lixo da Marta Suplicy, mesmo assim abraça o carteiro e agradece o contato. Jack lê a carta de cobrança minuciosamente, repete 3 vezes a leitura, abandona os papéis, pega o controle de sua tv, verifica todos os canais da tv aberta, desliga a tv, abaixa a cabeça, pensa no frio, pensa na cama vazia, pensa na sua vó, chora.

Jack é um rapaz solitário que vive em um cubículo no subúrbio de São Paulo. Jack não recebe a visita de amigos há anos, não possuí namorada, caso ou rolo, tem um cachorro com quem divide o pouco de comida que  obteve ao vender o que mais amou nessa vida, sua bicicleta. 

Jack tem muitas coisas em seu cubículo, mas nenhuma delas funcionam, com exceção de sua tv . Sua estante é repleta de livros que em grande maioria leu somente a metade e os abandonou por não ter com quem discutir seu aprendizado e suas conclusões. Na mesinha da sala-quarto, onde dorme e assisti tv, tem dois álbuns de fotos, algumas cartas velhas, canhotos de ingressos e passagens rodoviárias, uma peça intima rosa e uma mecha de cabelo ruivo. Jack toca todos os dias que acorda esse que é seu maior tesouro e viaja a um mundo que não conseguiu chegar, chora, lava o rosto e assisti tv.

Jack não tem muitos objetivos na sua vida, já que após a morte de seus avós por velhice e a da mãe por câncer linfático ele decidiu correr atrás da dona dos pertences que tanto zela e nunca  jogou. Infelizmente a dona o trocou porque não conseguiu esperar que ele fosse alguém e fosse resgatá-la de seu mundo de angústia e dor.

Jack toda semana escolhe um dia e saí para procurar trabalho ou um bico para que possa comprar não essencialmente comida, mas cartões telefônicos, para saber como está uma moça bonita, casada e mãe de 2 crianças. A moça bonita sempre o atendeu, pois sabe que o dia que não o fizer é porque Jack morreu.

-Jack, eu lhe conheço meu bom e velho amigo, sei que você tentou e fez o que pode pra que ela o esperasse, mas errou em não acabar com a espera. Jack, você errou e não conseguiu superar esse erro, era preferível que se matasse do que viver em função de alguém que você teve um dia e nunca mais terá. 

-Jack, meu amigo, acorde para essa vida, faça sua barba, tome banho mais freqüentemente, seja seu patrão e trabalhe, pare de chorar, jogue essas velharias foras e procure alguém. Não seja exigente, mas escolha bem, se cair novamente, levante-se.
Sou seu amigo, quero seu bem e sei do seu potencial, vá em frente meu amigo, não desista e não a faça sofrer com o seu amor de uma pessoa só.

Jack não dá ouvidos a si mesmo, conheceu o amor, o perdeu e não o renovou
Infelizmente Jack viverá assim até os últimos dias de sua vida.

Álvaro Henrique
5 de abril, 2003

Não quero ser Jack!